sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

ARBEIT MACHT FREI

Hoje fui tentar abrir uma conta corrente na Caixa Econômica Federal para poder assumir minha vaga num concurso que prestei e passei aqui na cidade provinciana com pretenções de metrópole modenrnérrima. Não consegui. O carinha, muito educado (até me ofereceu água!), disse que precisava de um papel (que não me foi entregue na data em que aceitei a vaga) onde consta o valor da fortuna de quase setecentos reais que vou ganhar e de um telegrama que a prefeitura me enviou convocando para que eu fosse até o R.H., ou melhor, Gestão de pessoal, para aceitar a vaga e pegar os encaminhamentos e demais papéis para poder assumir meu cargo. Como não tenho a porra do papel, fui até a prefeitura para reivindicá-lo junto a chefe do meu futuro departamento que, pasmem, estava almoçando às 14:45H (o almoço lá é das 11:00H às 13:30H!). Tudo bem, falei com outra senhora que trabalha lá e que ligou para a senhora que deveria estar e não estava (fiquei surpreso com a prontidão, nem precisei pedir, implorar ou ameaçar a funcinária pública para que ela gastasse seus dedinhos no teclado do telefone). Ao desligar o telefone ela me disse que não era necessário o tal papel e que nenhum outro concursado precisou dele para a brir a conta. Maravilha! atravessei a toa acidade! Ela me disse para que eu abrisse uma conta corrente comum, não uma onde eu só possa receber a fortuna do meu salário, mas também outros tipos de depósito, porque eu sou jovem e não pretendo receber só o salário da prefeitura, mas como estou me formando, eu posso arranjar um outra fonte de renda, como, por exemplo, dar aulas no período da noite.

Porra do caraio, mano!

Como assim, ter dupla jornada de trabalho porque o meu salário é baixo mesmo?

Isso mesmo rapaz, como você vai ganhar pouco aqui, você sabe que não dá para viver com isso, você pode começar a dar aulas durante a noite, afinal, não é para isso que você está estudando? Vá até a agência e abra uma c.c. comum para poder receber o dinheiro de suas outras atividades remuneradas.

A que ponto chegamos! é natural que eu trabalhe e não ganhe o suficiente para viver com o meu trabalho na sociedade que diz que o trabalho dignifica o homem. É normal que as pessoas pensem que é natural que os outros trabalhem dia e noite para conseguir dinheiro para sobreviver. Para essa mulher da prefeitura, é mais que natural que eu trabalhe seis horas na prefeitura e mais quatro horas dando aulas - quatro horas em sala, e o tempo que vou ter que usar para preparar as aulas? coloque ai mais umas duas ou três horas por dia, o que dá o total de 13, treze, TREZE horas por dia! Vinte e quatro horas menos oito, menos TREZE igual três, 3, TRÊS horas para eu poder viver o dinheiro que ganhei! E ainda dizem que o trabalho liberta o homem! Esse tipo de trabalho?

O que aconteceu com as pessoas, principalmente com os trabalhadores? Cadê a revolta, o companherismo, a camaradagem, a consciência, o sindicato, a luta por direitos, a defesa dos direitos garantidos por lei? Oito horas diárias com possibilidade de apenas duas horas extras por dia, nunca mais que isso; salário que garanta a sobrevivência com dignidade do trabalhador, férias remuneradas, folga semanal etc. Tudo vem sendo tirado e ninguém parece perceber! O que aconteceu, de onde vem esta dormencia, esta anestesia moral? será que a novela conseguiu, junto do cinema propagar a idéia de que se você trabalhar muito você vai ficar rico um dia, será que, realmente todos acreditam nisso? Se acreditam, ACORDEM, não tem para todo mundo, quem tem tem, quenão não tem que se foda para conseguir, mas saiba que quem tem não deixa que você que não tem consiga ter um dia, QUEM TEM NÃO DIVIDE! e se você trabalha dez, douze ou dezesseis horas por dia deixando toda sua vida de lado acreditando que um dia vai chegar a ser patrão, parabéns, você é mais um trouxa que trabalha muito para que outro conte o dinheiro que você, trouxa, ganhou feliz para ele não precisar trabalhar como você que ganha pouco para si e muito para ele. Nas suas poucas horas de folga você, trouxa, vai feliz com seu par, ou sozinho mesmo, se divertir num shopping center. BRAVO! você vai devolver o dinheiro que você "ganhou" com o muito suor do seu rostinho para ele, seu patrão, que dita o que você vai vestir, (porque, quem quer ser rico um dia tem que saber se vestir como um rico de verdade), o que você vai comer, o que você vai falar, como você vai trepar etc, e quando você comprar a pipoquinha e a coquinha para ver o filminho do momento que vai te dizer que você, trouxa, é um bosta porque não é como eles, os ricos são, e nem pode porque eles são e ponto, você vai fechar um ciclo hediondo que mantém você preso ao seu trabalho e às suas diversões programadas. E o pior de tudo, você, trouxa, lê a VEJA e reproduz todo seu discurso sem refletir sobre uma palavra lá impressa. Você é um pobre fudido e de direita que defende os interesses do seu patrão, ou dono, e tem a plena convicção que o teu trabalho liberta.
É hora de acordar, estamos caminhando para o abismo e vamos dançando felizes impelidos pelo açoite do sistema.

Um comentário:

nana disse...

É como disse o Saramago "estamos cegos".. só que as vezes parece TODOS estão cegos, e isto decepciona..
Agora o trabalhador agora, provavelmente está fazendo compras de Natal...
Parabéns pelo blog!